August 2, 2011

O VÍCIO DO OFÍCIO

Sai da linha de tiro, porra!”

É uma verdade inconveniente. Em algum momento, todo repórter torce pro circo pegar fogo. 

Na última madrugada, eu entrevistava um tenente da ROTA quando o rádio da viatura ao lado avisou que havia um tiroteio em andamento.

Imediatamente, meus olhos brilharam. Logo imaginei uma matéria quente, imagens cinematográficas, uma reportagem corajosa.

Larguei a história sobre uma estelionatária que eu estava fazendo em Sapopemba (Zona Leste) e rasgamos a cidade até o Jaçanã (Zona Norte), local do tiroteio, em meia hora. 

Encontramos a Avenida Guapira bloqueada. Havia 25, talvez trinta carros da PM — inclusive da Força Tática e da ROTA — e ainda quatro ou cinco equipes da Polícia Civil — Garra e Grupo de Operações Especiais.

Já desci do carro da TV com o microfone ligado e o experiente cinegrafista Gilmário Batista, com a câmera gravando.

Éramos a primeira equipe de reportagem no local.

O barulho do helicóptero Águia conferia um clima de inquietação a um cenário já bastante tenso. Do telhado da agência bancária, bandidos haviam disparado tiros de fuzil contra os policiais na rua, que revidaram com suas pistolas e revólveres.

Era 1h30 da madrugada, há mais de meia hora nenhum tiro era disparado. Tentamos conseguir um ângulo melhor, para ver a frente da agência. No limite da prudência.

Sai da linha de tiro, porra! Lá pra trás, depois da viatura." Ordens de um sargento, prontamente atendidas.

Significava que a situação ainda não estava controlada e que os bandidos continuavam oferecendo resistência.

Não demorou muito, policiais entraram na agência. Ação rápida e silenciosa. Prenderam um, pelo menos três escaparam.

A adrenalina baixou, nenhum outro tiro seria disparado.

Aquela expectativa de uma matéria recheada de adrenalina não se confirmou. Mas deixou um perigoso gostinho de “quero mais”.

August 2, 2010

OUVIRAM DO IPIRANGA…

Às margens asfaltadas da avenida Ricardo Jafet, por onde passa o hoje canalizado córrego famoso, meia dúzia de retumbantes disparos de arma de fogo.

Era fim de noite, e o raios fúlgidos do sol ainda demorariam a brilhar.

O braço forte de um ladrão armado com um revolver roubado disparou três tiros sem direção, desafiando o peito à própria morte. 

Que grandeza e que futuro essas histórias podem ter?

Essas mesmas margens já viveram dias de mais esperança.

July 29, 2010

200 ANOS DEPOIS… POUCA COISA MUDOU

"Este insulto foi seguido de uma descarga que matou dois dos nossos e feriu outros dois. Quão caro lhes custou! Vinte e tantos rolaram pelo morro abaixo à nossa primeira descarga, uns mortos e outros gravemente feridos, então se tornou geral o tiroteio, deram cobardemente costas, largando parte das armas; foram perseguidos e espingardeados em retirada e em completa debandada…”

Lacerda Werneck, Coronel da Guarda Nacional

O trecho acima é extraído de um memorando escrito pelo Coronel-Chefe da Guarda Nacional em 1838, Francisco Peixoto de Lacerda Werneck, em que ele narra a tentativa de alguns “perseguidores de escravos” de roubar “pretos alevantados” que abasteceriam fazendas em Minas Gerais e São Paulo.

Um crime relacionado ao tráfico de escravos. 

De lá pra cá, mudaram as riquezas. Mudaram os sistemas de segurança, que agora registram tudo em câmeras de circuito interno. O resto continua mais ou menos igual.

July 14, 2010

A VELOCIDADE CERTA

Ouvi algumas vezes meu pai contar uma história atribuída ao senador Pinheiro Machado, que era a figura mais poderosa da Velha República, no início do Século passado.

Certa vez, saindo do Palácio do Catete, no Rio de Janeiro, ele teria se deparado com uma manifestação popular contrária ao governo dele. O motorista dele, então, ficou em dúvida sobre como conduzir o carro:

 - Como devo dirigir, senador?
 - Nem tão rápido que pareça medo, nem tão devagar que pareça provocação.

Difícil imaginar a dificuldade que o tal motorista teve para transformar aquela determinação em Km/h.

Mas no incício desta semana, essa história me foi útil. Passava com a minha equipe da madrugada por uma ruela nas proximidades da avenida Cupecê onde, claramente, ninguém estava por um bom motivo.

Eram duas horas da manhã, na rua umas dez pessoas com cara de poucos amigos estavam encostadas em carros estacionados e, quando viram o carro da TV Globo, colocaram a mão ameaçadoramente na cintura num claro aviso de que não éramos bem vindos ali.

O técnico Arthur Silva estava ao volante e ouviu de mim aquela mesma indicação que o motorista do senador recebera há exatos 100 anos.

 - Como diria o senador Pinheiro Machado, Arthur, não dirija tão rápido que pareça medo, nem tão devagar que pareça provocação.
 - COMO É?? 

Nessa madrugada voltamos à mesma rua, dessa vez com a Força Tática da Polícia Militar. A matéria mostra que nosso receio tinha fundamento.

July 5, 2010

ARSENAL OU TIROTEIO?

O fluxo das pautas é caótico, não obedece às limitações ou necessidades da imprensa. Há dias (ou madrugadas) em que nada de interessante acontece. Outras vezes, é preciso escolher entre duas matérias.

Lei 17 da madrugada: tão certo quando dois corpos não ocupam o mesmo lugar no espaço, um mesmo corpo não pode estar em dois lugares ao mesmo tempo

Nossa equipe estava há apenas 100 metros do endereço onde foi encontrado um robusto arsenal doméstico, na região central de São Paulo, quando chegou a informação de um tiroteio em andamento na Zona Sul. O que fazer?

Ali do lado estava um apartamento em prédio bacana, em bairro idem cheio de metralhadoras, espingardas, pistolas e até um fuzil. Além disso, eu já estava em contato com o oficial da PM que cuidava do caso e ele garantia acesso ao apartamento. Longe dali, policiais e bandidos assaltavam uma empresa trocavam tiros.

O tiroteio era quente e, até onde se sabia, o apartamento não sairia do lugar. Demos meia volta e fizemos a matéria do vídeo acima (versão do SPTV).

No fim da madrugada, ainda voltamos para a Aclimação, mas já não podíamos mais subir no apartamento e tivemos que usar imagens gentilmente cedidas pela PM.

Corremos o risco de abrir mão de uma boa pauta para correr atrás de outra e ficarmos sem nenhuma das duas. No final das contas deu tudo certo, as duas entraram no Bom Dia São Paulo e uma delas no Bom Dia Brasil.

Durante a manhã, a repórter Karina Pachiega cobriu o caso do arsenal doméstico. A matéria dela está AQUI.

June 1, 2010

ROTEIRO DE CINEMA

Oliver Stone ainda estava detido no aeroporto, senão alguém poderia desconfiar que o crime fosse só mais um evento publicitário para divulgar um novo filme de ação.

Roubo a banco relâmpago, fuga em altíssima velocidade pela Zona Norte, Marginal Tietê, Dutra, Fernão Dias, Zona Leste… Tiroteio no meio do trânsito de São Paulo.

E drama. Uma perua escolar com duas crianças pequenas dentro (!) é roubada e usada pelos bandidos em fuga. E o tiroteio continua.

Não é cinema. Aconteceu aqui.

(Versão da Globo News, para variar um pouco)

May 24, 2010

WHAT’S NEW?

A Internazionale é campeã européia. O Corinthians vence a terceira partida seguida no Brasileirão. A série Lost chega ao fim. A Mega-Sena acumula e pode pagar 29 milhões de reais. Coreia do Sul inicia boicote à xará do Norte. São Paulo tem madrugada gelada. Bandido morre após perseguição e tiroteio na Marginal Tietê. Faltam 17 dias para Copa do Mundo.

São algumas das manchetes dessa segunda-feira. Todas notícias com gostinho de deja vu. É ler e pensar “e aí, qual é a novidade?

Noites de bang bang na cidade já não despertam surpresa ou indignição nos paulistanos.

Infelizmente.

May 18, 2010

COSA NOSTRA

Além do que está na matéria, já sabemos:

  • o suspeito fugiu da cadeia
  • os documentos que estavam com ele são do irmão
  • ele é apontado como um dos líderes do PCC
  • é conhecido pelo apelido de Vampirinho

No jornalismo da Globo não divulgamos o apelido de bandidos e nem o nome da facção criminosa que ele integra. Aliás, também não dizemos “facção criminosa”. Eu concordo, essas informações só promovem e dão notoriedade ao bandido e à… bem, facção.

Agora a Polícia já se prepara para possíveis retaliações da tal organização criminosa que age dentro e fora dos presídios de São Paulo (como a imprensa costuma se referir ao PCC). Policiais e bandidos dizem apenas “o partido”.

Durante a madrugada, na delegacia da Penha, onde o caso foi registrado, havia meia dúzia de carros da ROTA. Alguns dos policiais estavam atrás de árvores, arbustos e portas, numa “posição de defesa e contra-ataque”, como me explicou um deles.

May 12, 2010

QUANDO ROUBAR É MATAR

A Vila Mariana em madrugada de Velho Oeste. Quase 5 minutos de bang-bang.

Quando os forasteiros tentaram invadir, o xerife já estava de guarda. Ou mais ou menos isso…

A quadrilha chegou no carro da NET, com os equipamentos da NET, vestidos com o uniforme da NET. Primeiro parecia que era só um disfarce, mas não. O cara que foi preso (os outros dois escaparam) realmente é funcionário da NET há três anos.

Culpa nenhuma da NET, que fique claro. Tem gente que tem sangue ruim mesmo.

Ruim porque eles tentavam roubar remédios para tratamento de câncer que são distribuídos gratuitamente - uma ampola de nabthera, por exemplo, custa 6 mil reais.

Advinha o que iria acontecer com quem ficasse sem o medicamento? Roubar remédios como esses, é condenar quem precisa deles à morte.

April 22, 2010
LENDA URBANA - 2

Aquele tiroteio em frente ao Parque Ibirapuera, narrado por Gustavo, a quase-vítima-de-bala-perdida que passava de táxi por ali quando as balas começaram a voar para todos os lados.

A história do novo aniversário de Gustavo e da namorada dele está aqui.

A matéria sobre o tiroteio, no post anterior.

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