O VÍCIO DO OFÍCIO
“Sai da linha de tiro, porra!”
É uma verdade inconveniente. Em algum momento, todo repórter torce pro circo pegar fogo.
Na última madrugada, eu entrevistava um tenente da ROTA quando o rádio da viatura ao lado avisou que havia um tiroteio em andamento.
Imediatamente, meus olhos brilharam. Logo imaginei uma matéria quente, imagens cinematográficas, uma reportagem corajosa.
Larguei a história sobre uma estelionatária que eu estava fazendo em Sapopemba (Zona Leste) e rasgamos a cidade até o Jaçanã (Zona Norte), local do tiroteio, em meia hora.
Encontramos a Avenida Guapira bloqueada. Havia 25, talvez trinta carros da PM — inclusive da Força Tática e da ROTA — e ainda quatro ou cinco equipes da Polícia Civil — Garra e Grupo de Operações Especiais.
Já desci do carro da TV com o microfone ligado e o experiente cinegrafista Gilmário Batista, com a câmera gravando.
Éramos a primeira equipe de reportagem no local.
O barulho do helicóptero Águia conferia um clima de inquietação a um cenário já bastante tenso. Do telhado da agência bancária, bandidos haviam disparado tiros de fuzil contra os policiais na rua, que revidaram com suas pistolas e revólveres.
Era 1h30 da madrugada, há mais de meia hora nenhum tiro era disparado. Tentamos conseguir um ângulo melhor, para ver a frente da agência. No limite da prudência.
“Sai da linha de tiro, porra! Lá pra trás, depois da viatura.” Ordens de um sargento, prontamente atendidas.
Significava que a situação ainda não estava controlada e que os bandidos continuavam oferecendo resistência.
Não demorou muito, policiais entraram na agência. Ação rápida e silenciosa. Prenderam um, pelo menos três escaparam.
A adrenalina baixou, nenhum outro tiro seria disparado.
Aquela expectativa de uma matéria recheada de adrenalina não se confirmou. Mas deixou um perigoso gostinho de “quero mais”.
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