August 31, 2011

IMPRESSÕES DO ESCURO

Nesses últimos dois anos vivi São Paulo de um jeito que eu não conhecia. Sem filtros. Fui longe para ver de perto o que antes só existia pra mim na televisão.

Metade desse tempo — 12 meses completos — trabalhei durante a madrugada. Coloquei quase tudo o que vi aqui no blog.

Durante essas mais de 350 noites sem dormir, vi sangue demais, mas nunca consegui ignorar o cheiro. Testemunhei o lado mais violento das pessoas e toda vez também me senti agredido. Encontrei uma sociedade desamparada, senti um vazio, muitas vezes não senti o chão.

Também vi muita esperança. E esse é um sentimento irresistível e contagiante. 

A cidade é fascinante durante a madrugada e cheia de histórias que valem a pena contar.

Foi incrível!  Mas agora chegou a hora de mudar. De horário e de ares. A partir de setembro volto para o jornalismo esportivo, desta vez pelo Sportv.

Vou guardar com carinho a lembrança desses dois anos.

Muito obrigado a todos que passaram por aqui e acompanharam pela televisão.

AGRADECIMENTOS

Gostaria de dizer MUITO OBRIGADO a todos que de alguma forma me ajudaram durante tantas noites insones, tantos jantares, aniversários, feriados e festas perdidos. Agradeço à Márcia, Andre Cesar, Fábio Rodrigues, Cantão, Tiago, Glauco, Chucky e a todos os editores. Muito obrigado ao Gilmário, Almir, Arthur, Fraquetta e todos os outros cinegrafistas e técnicos que trabalharam comigo. Obrigado Denise, Cristina e Mariano pela oportunidade. Ao Montenegro, que me guiou por caminhos mal iluminados, meu obrigado. À Carla, Mariana, Monalisa, Jean, Gio, Vespa, Dalton, Carmen, Eli, Waltinho, Angélica, Lara, Augusto, Stotz, Cláudio, Renata, Juliana, Rafael, Sabina, Daiana, Turci, Galvão, Alexandre, Albertina, Nélio, Bia, Bruna, Lupo, Tiago, Cleber e Beth, obrigado pela amizade. Agradeço à dona Lúcia, que soube respeitar meu sono fora de hora. Obrigado Vera, Orlando e Fabinho pelo incentivo. Ao Lelo, Ricardo e Gustavo por acompanhar tudo de perto. Obrigado mãe, por sempre me impedir de deixar a peteca cair. Ao meu pai, que de alguma forma sempre editou todo esse trabalho com sutileza. À minha irmã Gabriela, pelo incentivo e amizade. 

À minha filha Isabel, pelo amor incondicional e por conseguir estar sempre junto de mim. E um muito obrigado especial à minha mulher Juliana, que teve que dormir sozinha tantas noites e enfrentou as madrugadas junto comigo.

Espero não ter cometido a injustiça de esquecer de alguém.

(A música do vídeo acima é Linus and Lucy Song, de Vince Guaraldi. Um tema que às vezes tocava na minha cabeça durante as madrugadas mais interessantes.)

August 16, 2011

CINE PARADISO

Batizado em homenagem ao filme de Giuseppe Tornatore, o Cine Paradiso do Jardim São Luis, na Zona Sul de São Paulo, exibe filmes na laje de um bar.

As sessões acontecem toda segunda-feira, até o fim de setembro. Serão 12 filmes que tratam sobre a vida na periferia. Escritos, produzidos e protagonizados por quem vive nas comunidades.

A iniciativa é bacana demais, pena que ontem as exibições tiveram que ser adiadas por falta de energia elétrica no bairro. Mas já deu para sentir um pouco do sabor original do festival.

August 12, 2011
CENAS DE SEXTA-FEIRA

Seis da tarde.

Duas jovens dançam funk em frente a uma oficina de carros. O som do batidão vem do celular de uma delas.

O motorista de um ônibus para no meio da rua para acompanhar o espetáculo. Assovios, aplausos e elogios duvidosos são ouvidos de longe.

Elas fazem uma coreorafia, descem até o chão. Sobem sem pressa, para o ruidoso delírio dos mecânicos.

A música acaba. O show também.

Cada um retoma seu caminho.

São Paulo, 12 de agosto de 2011

August 2, 2011

O VÍCIO DO OFÍCIO

Sai da linha de tiro, porra!”

É uma verdade inconveniente. Em algum momento, todo repórter torce pro circo pegar fogo. 

Na última madrugada, eu entrevistava um tenente da ROTA quando o rádio da viatura ao lado avisou que havia um tiroteio em andamento.

Imediatamente, meus olhos brilharam. Logo imaginei uma matéria quente, imagens cinematográficas, uma reportagem corajosa.

Larguei a história sobre uma estelionatária que eu estava fazendo em Sapopemba (Zona Leste) e rasgamos a cidade até o Jaçanã (Zona Norte), local do tiroteio, em meia hora. 

Encontramos a Avenida Guapira bloqueada. Havia 25, talvez trinta carros da PM — inclusive da Força Tática e da ROTA — e ainda quatro ou cinco equipes da Polícia Civil — Garra e Grupo de Operações Especiais.

Já desci do carro da TV com o microfone ligado e o experiente cinegrafista Gilmário Batista, com a câmera gravando.

Éramos a primeira equipe de reportagem no local.

O barulho do helicóptero Águia conferia um clima de inquietação a um cenário já bastante tenso. Do telhado da agência bancária, bandidos haviam disparado tiros de fuzil contra os policiais na rua, que revidaram com suas pistolas e revólveres.

Era 1h30 da madrugada, há mais de meia hora nenhum tiro era disparado. Tentamos conseguir um ângulo melhor, para ver a frente da agência. No limite da prudência.

Sai da linha de tiro, porra! Lá pra trás, depois da viatura." Ordens de um sargento, prontamente atendidas.

Significava que a situação ainda não estava controlada e que os bandidos continuavam oferecendo resistência.

Não demorou muito, policiais entraram na agência. Ação rápida e silenciosa. Prenderam um, pelo menos três escaparam.

A adrenalina baixou, nenhum outro tiro seria disparado.

Aquela expectativa de uma matéria recheada de adrenalina não se confirmou. Mas deixou um perigoso gostinho de “quero mais”.

July 20, 2011

LAR DOCE LAR

Uma família de São Miguel Paulista, na Zona Leste de São Paulo, criou um novo parâmetro para o conceito de lar desestruturado.

Embora o sobrado, localizado em uma rua residencial do bairro, seja espaçoso, na hora de dormir o casal e os três filhos pequenos se amontoavam em uma cama de casal e um colchão de solteiro colocado no chão.

O mesmo cômodo também era dividido com um cachorro da raça poodle-genérico.

Isso porque os demais quartos da casa tinham outra finalidade.

Um foi transformado em laboratório de drogas. Outro, era utilizado como cativeiro.

July 11, 2011

CAMPO MINADO

Sair de casa sem saber se vai voltar no fim do dia.

É assim que se sente quem vive em São Paulo. Pelo menos quem tem coragem de olhar em volta.

Só este ano, 84 pessoas foram assaltadas e em seguida assassinadas na cidade. O crime acontece praticamente dia sim, dia não.

Algumas pessoas foram baleadas porque reagiram ou tentaram fugir — e quem pode dizer que elas estavam erradas? —, outras porque não tinham dinheiro e foram vítimas da frustração do bandido.

Diante desse quadro, é difícil entender porque o suíço Nicolas Friederich escolheu nossa cidade para viver. Ontem à noite, a caminho do hotel Grand Hyatt, onde é chefe de cozinha, ele tentou fugir de assaltantes e levou um tiro nas costas. Morreu a caminho do hospital.

Já pensei em adotar uma estratégia que era usada pelo exército inglês na II Guerra Mundial, quando um grupo de especialistas em bombas explorava o terreno antes do avanço dos pelotões para se certificar que não havia minas terrestres ali.

A idéia é um segurança fazer o caminho na frente, com a mesma moto, o mesmo carro, a mesma roupa… O difícil vai ser encontrar um segurança-kamikaze para o serviço.

Minas e bandidos têm muita coisa em comum. São igualmente covardes e sorrateiros. Nos dois casos, se você passar por um deles provavelmente vai perder a vida. Ambos explodem ao menor movimento da vítima e depois desaparecem.

Ou alguém já viu mina terrestre na cadeia? O assassino de ontem fugiu, o do dia anterior também…

July 1, 2011

RESPONSABILIDADE DO ESTADO

Nilda e a irmã Rosemeri pediram ajuda várias vezes. Registraram boletins de ocorrência. Elas contaram para a Polícia o que estava acontecendo.

O ex-marido de Nilda é um homem violento. Agrediu ela e a irmã várias vezes.

E elas pediram proteção policial. Ouviram como resposta que nada poderia ser feito.

Ontem à noite, Sidclay, o ex-marido, invadiu a casa de Nilda. Distriubuiu socos e ameaçou atear fogo em tudo.

Se essa história termina com a tragédia, de quem seria a culpa?

June 28, 2011

RAZÕES PARA ACREDITAR

Sabe aquela propaganda que diz “os bons são maioria”?

Dá um certo conforto tentar acreditar nisso contra todas as evidências, contra tudo o que aparece no telejornal.

Mas manter acesa essa fé na bondade humana se torna missão especialmente complicada para quem convive com o Mal (com caixa alta mesmo).

O trabalho me coloca perto demais da violência, da mesquinharia e do descaso público. Piso na rua ainda suja de sangue, entro no cativeiro recém-estourado, vasculho o escritório do corrupto.

Participo daquele jornal que te dá bom dia, e em seguida mostra que não é bem assim.

Nessa madrugada saí da redação sem destino e, sorte dupla, cruzei com uma turma que faz o bem. De graça. Sem esperar nada em troca, nem mesmo um muito obrigado. Toda segunda-feira à noite eles rodam por seis pontos da cidade e distribuem cobertores, lanches e chocolate quente para moradores de rua.

Foi uma madrugada gelada, fez 3ºC em São Paulo. Sem exagero, eles podem ter salvado vidas ontem à noite.

Sorte dupla porque renovei minha crença nas pessoas e, de quebra, nasceu ali uma matéria.

April 26, 2011

MUITO ANTES DO IPOD

O inverno é longo e rigoroso em Sainte-Croix, na Suiça.

Hoje a cidade tem 4500 habitantes. No final do século XVIII, apenas algumas famílias, menos de 500 pessoas, moravam na vila que nasceu no pé dos alpes, perto da fronteira com a França.

Nessa época, durante os meses frios, sem poder contar com a agricultura, os moradores tiravam o sustento da fabricação de relógios. E com a mesma tecnologia e precisão mecânica, desenvolveram as caixas de música.

Muito mais que um novo artesanado, surgia ali uma revolução cultural. Pela primeira vez na história, o homem poderia levar a música para dentro de casa sem precisar de um instrumento e, claro, de um músico para tocá-lo.

A exposição das caixas de música e dos (fascinantes) autômatos de Sainte-Croix é gratuita e está no Centro Cultural Ruth Cardoso, no prédio da Fiesp, na Avenida Paulista.

April 15, 2011
PROFISSÃO IMORAL?
O Jornalista e o Assassino, livro da jornalista Janet Malcolm, ganhou este mês uma edição de bolso da Companhia das Letras. O livro é, no fundo, uma reportagem sobre uma reportagem.
Malcom, nascida em Praga em 1934, escreveu esse pequeno clássico entre estudantes de jornalismo, há mais de 20 anos, quando já era colaboradora assídua da revista New Yorker. O livro virou uma espécie de manual de ética das relações entre repórteres e fontes, principalmente na cobertura policial.
Um processo judicial que causou comoção nos Estados Unidos no final dos anos 1980 é o pano de fundo do livro, que analisa a relação do repórter Joe McGinniss (o jornalista) com o médico Jeffrey MacDonald (o assassino), condenado a prisão perpétua pelo assassinato da mulher e das duas filhas.
MacDonald escreveu um livro baseado em entrevistas que fez ao longo de 4 anos com McGinniss — durante o julgamento e na prisão. Em Fatal Vision (não ganhou versão em português), Mac publica cartas trocadas com Mc e trechos de diálogos que eles tiveram.
Assim que o livro foi publicado, Mac foi processado por Mc.
O processo abriu um precedente, porque não discutia a verdade ou falsidade do que havia sido escirto, apenas questionava o direito do jornalista de publicar informações que foram obtidas a partir de uma mentira.
A mentira, no caso, foi a ferramenta do repórter para ganhar a confiança do condenado. Ele dizia — em conversas e cartas — que estava convencido da inocência do médico.
O processo terminou com um acordo extrajudicial. MacDonald pagou US$325 mil a McGinniss.
Até que ponto um jornalista pode seduzir um entrevistado para conseguir as declarações que procura? Essa é a discussão apresentada por Janet Malcolm.
O primeiro parágrafo de O Jornalista e o Assassino, reproduzido abaixo, merece a reflexão de todos os jornalistas.

Qualquer jornalista que não seja demasiado obtuso ou cheio de si para perceber o que está acontecendo sabe que o que ele faz é moralmente indefensável. Ele é uma espécie de confidente, que se nutre da vaidade, da ignorância ou da solidão das pessoas. Tal como a viúva confiante que acorda um belo dia e descobre que aquele rapaz encantador e todas as suas economias sumiram, o indivíduo que consente em ser tema de um escrito não ficcional aprende — quando o artigo ou livro aparece — a sua própria dura lição. Os jornalistas justificam a própria traição de várias maneiras, de acordo com o temperamento de cada um. Os mais pomposos falam de liberdade de expressão e do “direito do público a saber”; os menos talentosos falam sobre a Arte; os mais decentes murmuram algo sobre ganhar a vida.

PROFISSÃO IMORAL?

O Jornalista e o Assassino, livro da jornalista Janet Malcolm, ganhou este mês uma edição de bolso da Companhia das Letras. O livro é, no fundo, uma reportagem sobre uma reportagem.

Malcom, nascida em Praga em 1934, escreveu esse pequeno clássico entre estudantes de jornalismo, há mais de 20 anos, quando já era colaboradora assídua da revista New Yorker. O livro virou uma espécie de manual de ética das relações entre repórteres e fontes, principalmente na cobertura policial.

Um processo judicial que causou comoção nos Estados Unidos no final dos anos 1980 é o pano de fundo do livro, que analisa a relação do repórter Joe McGinniss (o jornalista) com o médico Jeffrey MacDonald (o assassino), condenado a prisão perpétua pelo assassinato da mulher e das duas filhas.

MacDonald escreveu um livro baseado em entrevistas que fez ao longo de 4 anos com McGinniss — durante o julgamento e na prisão. Em Fatal Vision (não ganhou versão em português), Mac publica cartas trocadas com Mc e trechos de diálogos que eles tiveram.

Assim que o livro foi publicado, Mac foi processado por Mc.

O processo abriu um precedente, porque não discutia a verdade ou falsidade do que havia sido escirto, apenas questionava o direito do jornalista de publicar informações que foram obtidas a partir de uma mentira.

A mentira, no caso, foi a ferramenta do repórter para ganhar a confiança do condenado. Ele dizia — em conversas e cartas — que estava convencido da inocência do médico.

O processo terminou com um acordo extrajudicial. MacDonald pagou US$325 mil a McGinniss.

Até que ponto um jornalista pode seduzir um entrevistado para conseguir as declarações que procura? Essa é a discussão apresentada por Janet Malcolm.

O primeiro parágrafo de O Jornalista e o Assassino, reproduzido abaixo, merece a reflexão de todos os jornalistas.

Qualquer jornalista que não seja demasiado obtuso ou cheio de si para perceber o que está acontecendo sabe que o que ele faz é moralmente indefensável. Ele é uma espécie de confidente, que se nutre da vaidade, da ignorância ou da solidão das pessoas. Tal como a viúva confiante que acorda um belo dia e descobre que aquele rapaz encantador e todas as suas economias sumiram, o indivíduo que consente em ser tema de um escrito não ficcional aprende — quando o artigo ou livro aparece — a sua própria dura lição. Os jornalistas justificam a própria traição de várias maneiras, de acordo com o temperamento de cada um. Os mais pomposos falam de liberdade de expressão e do “direito do público a saber”; os menos talentosos falam sobre a Arte; os mais decentes murmuram algo sobre ganhar a vida.

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